O Programa > Docentes > Projetos de Stela Caputo           < Lattes >

TÍTULO DA PESQUISA

Crianças de terreiros: educação, sujeitos, imagens e criação de culturas

PERÍODO:

2016 - 2018

LINHA DE PESQUISA

Cotidianos, Redes Educativas e Processos Culturais

GRUPO(S) DE PESQUISA

ILÉ OBA ÒYÓ

FINANCIAMENTO(S)

FAPERJ

O presente projeto pretende dar continuidade ao projeto anterior onde pesquisamos como crianças e jovens de terreiros aprendem e ensinam o yorubá, uma língua africana viva que circula cotidianamente nos terreiros de candomblé no Brasil. De acordo com Beniste (2006), este idioma pertence à família de línguas do Sudão e é falado nas diferentes regiões da atual Nigéria. O yorubá, assim como outras línguas africanas, chega até nós no período da escravidão e se torna a mais comum nas comunidades negras. Seu último refúgio, lembra o pesquisador, foi nas comunidades de candomblé (os ilè ) que se utilizam de elementos culturais nagôs e tem sido mantida através de cânticos, rezas e expressões diversas.
Já a antropóloga Juana Elbein dos Santos afirma que os africanos de origem Bantu, do Congo e de Angola foram trazidos para o Brasil durante o período da conquista e espalhados em pequenos grupos por imensos territórios nos Estados do Rio, São Paulo, Espírito Santo e Minas Gerais, numa época de comunicações difíceis e com centros urbanos começando a nascer (1986, p. 31). Os Nagôs, diz Santos, foram trazidos durante o último período da escravidão e concentrados em zonas urbanas em pleno apogeu dos estados do Norte e do Nordeste, Bahia e Pernambuco, particularmente nas capitais desses estados, Salvador e Recife. A referência de Santos é muito importante porque contextualiza o fato da maioria dos terreiros de candomblé no Brasil ser de tradição Nagô e porque justamente este candomblé tenha se perpetuado mais entre nós. Mas é no que argumenta Lopes (2003) que pretendemos nos debruçar neste novo projeto. Para este pesquisador dentro do quadro da presença afro-negra no Brasil, verifica-se uma predominância das culturas bantas, que colaboraram, diz ele, para nossa formação cultural, principalmente através de suas línguas, entre elas, o Quicongo, o Umbundo e o Quimbundo. Lopes contesta o que chama de suposta ascendência de línguas sudanesas, como o nagô (yorubá) no panorama das línguas africanas faladas no Brasil à época da escravidão e que teria modificado o falar português em nosso país. De acordo com ele, de fato, no vocabulário do português falado no Brasil, os termos de origem nagô estão mais restritos às práticas e utensílios ligados à tradição dos orixás, como a música, a descrição dos trajes e a culinária afro-baiana. (...) Tanto na fonética, quanto na morfologia e na sintaxe, as línguas bantas influeciaram decisivamente a língua que se fala hoje no Brasil. Mas, enfatiza, é no vocabulário que elas se fazem, mais presentes.
O objetivo do presente projeto é continuar partilhando como crianças de terreiros criam sentidos nos cotidianos dos candomblés. Desta vez, manteremos nossas observações e vivências em terreiros chamados de "nação Angola" para tentar compreender como crianças e jovens vivenciam línguas como quimbundo e o umbundo.

    

TÍTULO DA PESQUISA

APRENDENDO YORUBÁ NAS REDES EDUCATIVAS DOS TERREIROS: potências para discutir história, culturas africanas e enfrentar a intolerância nas escolas

PERÍODO:

2014 - 2016

LINHA DE PESQUISA

Cotidianos, Redes Educativas e Processos Culturais

GRUPO(S) DE PESQUISA

ILÉ OBA ÒYÓ

FINANCIAMENTO(S)

FAPERJ

Omolocun ajeun bó, omolocun/Omolocun ajeun bó, omolocum. A cantiga é entoada nos terreiros de candomblé de Kétu para as rodas do Òrìṣà Logun Edé. São apenas duas frases em yorubá e precisamos desdobrá-la em muitos sentidos. Òrìṣà , por exemplo. Para Santos (1975), alguns autores sustentam que os Òrìṣà são ancestrais divinizados, chefes de linhagens ou de clãs africanos que, através de atos excepcionais durante suas vidas, transcenderam os limites de sua família ou de sua dinastia passando a ser cultuados por outros clãs até se tornarem entidades de culto nacional. Nos terreiros de candomblé, acredita-se que é possível lidar de diferentes formas com essas entidades, com a energia dessas entidades. De Logun Edé, digamos, para resumir drasticamente, que é um Òrìṣà caçador e pescador. É filho dos Òrìṣà Ọ̀sọ́ọ̀si e Ọ̀ṣun assumindo características de ambos. Justamente por isso, seu mito ensina que ele vive metade do ano nas matas (domínio do pai) e a outra metade nas águas doces (domínio da mãe).
A cantiga que abre esse texto diz que Logun Edé “come todo omolocum”. Já omolocum é uma comida ritual, de Oṣun, mãe de Logun. Para fazer o omolocun, a Ìyá Bassé (responsável pela comida), reúne delicadamente erèé (feijão - e, nesse caso específico, o feijão fradinho), edé (camarão), àlùbósà (cebola), epo dídùn (azeite doce) ou pupa (azeite de dendê), eyin (ovos) sendo que cozidos.
Esta língua também nomeia os cargos adquiridos pelos iniciados e iniciadas como, não só a Ìyá Bassé, que já vimos aqui, mas todos os outros cargos, desde a Ìyálòrìṣà (literalmente, a mãe que cuida dos Òrìṣà, mais conhecida como Mãe de Santo) ou o Bàbálóriṣà (Pai de Santo) até o abíyán (aquele ou aquele que participa do terreiro, mas não é iniciado ou iniciada). Nomeia os rituais, como por exemplo, o Àṣèṣè realizado quando morre um filho ou filha de santo. A respeito desses ritos aprendemos com Munanga que, diferentes culturas africanas vivem em familiaridade com a morte, sendo esta apenas um momento do círculo vital que não prejudica a continuidade da vida. Isso não significa ou não impede, de acordo com ele, que a morte provoque uma desordem tanto na linhagem na comunidade do morto. "Os ritos funerários servem justamente para contornar de forma simbólica a desordem e restaurar o equilíbrio emocional do grupo abalado pela morte". (MUNANGA, 2007, p.32).
O yorubá é uma língua africana viva que circula cotidianamente nos terreiros de candomblé no Brasil e que crianças, jovens e adultos conhecem. Aprendemos com Beniste (2006) que este idioma pertence à família de línguas do Sudão e é falado nas diferentes regiões da atual Nigéria. A língua, assim como outras, chega até nós no período da escravidão e se torna a mais comum nas comunidades negras. Seu último refúgio, diz Beniste, foi nas comunidades de candomblé (os ilè ) que se utilizam de elementos culturais nagôs. Tem sido mantida através de cânticos, rezas e expressões diversas.
A pesquisadora Nilda Alves, há muito vem reafirmando suas preocupações com a importância dos múltiplos espaçostempos nos aprendizados tanto de estudantes como de professores e professoras. Sua principal defesa é de que a formação se dá em múltiplos contextos (2010). Para ela, é preciso compreender que os muros das escolas são criações imaginárias e que vivemos e aprendemos todos dentro e fora das escolas, ou seja, em redes educativas. Acreditamos que os terreiros de candomblé com toda sua produção histórica, material e simbólica, com todo seu modo de vida, e portanto, com toda sua cultura estão nessas redes educativas. Redes tecidas por danças, cantos, comidas, rezas, folhas, mitos, artefatos, gestos, segredos. Redes tecidas pela história desses povos. O yorubá perpassa todos esses saberes, como um fio de linguagem que acende, organiza e mantém a comunicação dos praticantes do culto.


Metodologia



Há maneiras distintas de relação com esta língua nos terreiros e entre seus membros. Alguns compreendem mais e outros menos o significado daquilo que cantam ou falam e acham isso muito importante. Outros não acham necessário entender completamente a tradução das cantigas e acreditam na importância do ritual mesmo sem a compreensão de todo o seu conteúdo.
A oralidade manteve entre nós os candomblés e suas línguas. As histórias das casas, de seus fundadores, de suas ligações ancestrais com África, os muitos e diferentes rituais, as cantigas, as receitas, os segredos. Tudo passado de candomblecista para candomblecista através de gerações trazendo essas culturas desde a escravidão até nossos dias. No que se refere ao yorubá, na grande maioria dos terreiros de Kétu, o mais comum é a repetição das palavras em rezas, cantos, ou no trato cotidiano em que as expressões neste idioma são necessárias até que todos ou quase todos se expressem de forma semelhante. Diz assim o pesquisador Ruy do Carmo Póvoas:

O candomblé da Bahia tem suas origens perdidas nas senzalas, onde os negros escravos transmitiam aos seus filhos os segredos dos Òrìṣà, a fé em Ọlrun e a esperança em Óṣàlá. Esses segredos resistiram a toda forma de opressão evangelizadora católica, à perseguição policial e a toda sorte de repressão e preconceitos. Não aceitando a escrita para registrar e perpetuar os segredos dos Òrìṣà,a comunidade do candomblé confiou apenas no sistema de transmissão boca-ouvido. E, durante 400 anos, assim tem acontecido na Bahia, cada geração velando e transmitindo o preceito. (PÓVOAS, 1989, p.9).

O mesmo Póvoas assegura que, vivendo em sociedade de língua portuguesa, o candomblecista precisa manejar a língua de sua religião para estabelecer o diálogo entre homens e divindades e, assim, termina bilíngue (idem, p.19). Por sua vez, Castro também identifica um imenso repertório de base iorubá nestas comunidades, sem, contudo, que isso signifique, no seu entendimento, uma "competência linguística." (CASTRO, 2001, p.68).
O que vemos é que sim, os candomblecistas reúnem um vocabulário muito grande de palavras em yorubá e as utilizam, em geral, não como uma segunda língua, mas em uma mistura singular de português, yorubá (e mesmo outras línguas africanas) como, por exemplo, em uma corriqueira frase: "pegue o obé e corte o ilá" (pegue a faca e corte o quiabo). O interesse de nossas pesquisas é pelas redes de saberes e significações no candomblé. Contudo, nesse momento, nos preocupamos em compreender o aprendizado do yorubá e seus uso nos terreiros, seja qual for o caminho percorrido na relação de aprender, ensinar e manter a língua.
Como opção metodológica para nos aproximar de nossos objetivos, observaremos durante dois anos o Ilè Aşé Omi Laare Ìyá Sagbá. Trata-se de um terreiro de candomblé Kétu, localizado em Santa Cruz da Serra, município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro. Nesse terreiro, todos os filhos e filhas da casa possuem um caderno/diário que começa a ser usado e experenciado a partir da sua iniciação, onde registram os rituais, mitos, trocas. Mesmo os sonhos são estimulados a ganharem um corpo de escrita. O vocabulário e rezas em yorubá também são registrados. Simultaneamente a fala, a oralidade, continuam sendo praticadas em yorubá. Oralidade e escrita não são vistas como oposição ou dicotomia, mas como complementos.
Além da observação frequente, consultamos bibliografia sobre o tema e conversamos com o Babálórìşà Daniel ti Yemọjá , responsável dessa casa. Entrevistamos quatro candomblecistas dessa mesma casa (duas crianças, sendo uma de oito e outra de nove anos e dois adolescentes, sendo um de 16 e outro de 18 anos). Gravamos conversas e registramos imagens no cotidiano tão citado nas respostas sobre a forma como se aprende yorubá neste lugar que não é escolar, mas é impregnado de saberes e processos educativos que tecem sentidos para os que participam de sua cultura.
Imaginamos inicialmente que a relação com este idioma nos revelará preciosos saberes para além dos imaginários muros das escolas. Acreditamos que essa relação também pode ser uma pista potente para estimular e contribuir com o ensino da História da África nas escolas, bem como enfrentar a discriminação e intolerância religiosa.

    

TÍTULO DA PESQUISA

FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE ENSINO RELIGIOSO NA ESCOLA PÚBLICA DO RIO DE JANEIRO

PERÍODO:

2011 - 2013

LINHA DE PESQUISA

Cotidianos, Redes Educativas e Processos Culturais

GRUPO(S) DE PESQUISA

ILÉ OBA ÒYÓ

FINANCIAMENTO(S)

FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE ENSINO RELIGIOSO NA ESCOLA PÚBLICA DO RIO DE JANEIRO

Às 9h30min do dia 1º de março de 2011 chego ao local onde preciso participar de uma reunião. No ar, um cheiro forte de incenso impregna o ambiente. Ao fundo, o CD da Campanha da Fraternidade (CF) deste ano cujo tema é “Fraternidade e a vida no planeta – a criação geme em dores de parto”. Anotei o trecho da música que tocava enquanto eu entrava: “O mal deixe sua maldade. Pecador deixe seus planos, ao senhor volte e verá o perdão de seus enganos. Meu pensar não é o vosso, vosso agir não é o meu, tão distantes um do outro, quanto a terra está do céu!” Para recepcionar os convidados foi montada uma mesa à porta de entrada. Nela, cada participante recebia uma pasta vermelha e cinza da editora católica “Edições Paulinas”. Em seu interior, o n. 277 da revista “Vida Pastoral – revista bimestral para sacerdotes e agentes de pastoral”, editada pela Pia Sociedade de São Paulo, um folheto colorido e de várias páginas da Editora Paulinas com propaganda de suas publicações e o n. 45 da revista “Páginas Abertas” da Editora Paulus (todas essas são da mesma “família” Paulinas), além de muito material de divulgação da Campanha da Fraternidade.
Não, a atividade não é em uma Igreja Católica. Estou no auditório da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC) para a realização do VII Fórum do Ensino Religioso cujo tema é “Ensino Religioso: entrelaçando saberes e a vida do planeta”. Os convidados são professores e professoras de Ensino Religioso da rede pública estadual, autoridades do Estado e representantes de religiões. Cerca de 100 pessoas estiveram presentes. O objetivo desta pesquisa não é apresentar a história do Ensino Religioso no Rio de Janeiro (para isso, ver Cury, 2004 e Cunha, 2008, entre outros) . O que pretendo observar é como os professores e professoras dessa disciplina estão sendo preparados e preparadas pelo Estado.
A pesquisa anterior (Educação em terreiros e como a escola se relaciona com crianças de candomblé), constatei em inúmeros depoimentos que existe discriminação destas na escola. A disciplina de Ensino Religioso não inventou essa discriminação, mas, pelo que observei, ela agrava a discriminação já existente, já que a disciplina é hegemonizada por professores católicos e evangélicos. Em janeiro de 2004, foram contratados, por concurso, 500 professores de ensino religioso, incorporando-se aos 364 que já lecionavam educação religiosa (68,2% católicos, 26,31% evangélicos e 5,26% de “outras religiões” (umbanda, espiritismo segundo Alan Kardek, messiânicos e mórmons). Nenhum do candomblé. Entrevistei 12 desses professores e a maioria disse utilizar textos do Padre Marcelo Rossi nas aulas, e trechos da bíblia que são comuns à católicos e evangélicos. Uma professora (também de uma escola onde estudam duas irmãs candomblecistas), chegou a comemorar a conversão de oito alunos de candomblé que, de acordo com a educadora, “entenderam que estavam errados e se tornaram cristãos”. Em 2007, a Igreja católica lança sua coleção de livros didáticos católicos e em 2011, o Prefeito Eduardo Paes decreta que também no município haverá aulas de religião e abre contratação para 600 professores.
Acredito que a UERJ, por sua larga história na formação de professores, não pode se furtar a essa discussão. Nas disciplinas que leciono não é raro que a maioria das turmas sequer tenha conhecimento da disciplina de Ensino Religioso.

HIPÓTESE - a hipótese que apresento é que professores e professoras de Ensino Religioso (ER) estão sendo preparados para uma missão na escola: catequizar e evangelizar alunos e alunas. Para constatar o que exponho de antemão tenho analisado os encontros de ER, os materiais confeccionados, entrevistas e bibliografia sobre o assunto. Os encontros de formação para a pesquisa iniciaram-se em 1996.
No VII Fórum de ER, por exemplo, o primeiro a falar é o arcebispo do Rio, Dom Orani João Tempesta, e sua saudação inicial é mais um elemento que reforça minha convicção. Diz Vossa Excelência Reverendíssima: “Embora seja proposta pela Igreja Católica, a quaresma significa conversão para toda a sociedade. Temos a graça de ter essa entrada nas escolas através do Ensino Religioso e mudar comportamentos. Desejo que esse fórum fortifique a implantação do Ensino Religioso e também motive a discussão da Campanha da Fraternidade”.

O que são os Fóruns de Ensino Religioso?

Uma das primeiras coisas que me chama a atenção é que o VII Fórum do Ensino Religioso é um evento que integra um cronograma extremamente organizado de atividades da Coordenação de Ensino Religioso (CER) distribuído no dia 9 de fevereiro de 2011, durante reunião do Grupo de Trabalho (GT) do Ensino Religioso do qual também participei. O objetivo do fórum está bem definido na quarta coluna do cronograma: “apresentar a Campanha da Fraternidade/2011 numa postura de parceria com a Igreja Católica, procurando dar subsídios para seu desenvolvimento na Comunidade Escolar e nas aulas de Ensino Religioso, com todos os credos”. Na quinta coluna vemos apontado como público alvo: “articuladores, professores, diretores, gerentes de ensino, autoridades religiosas e outros”.
A mesa de abertura do VII Fórum foi composta por representantes dos credos: católico, evangélico, umbanda e islâmico. Judeus, messiânicos e mórmons estavam convidados, mas não comparecerem. O fato constrangedor é que, embora constasse no folder da programação e estivesse no plenário aguardando para compor a mesa, o Babalorixá, Marcos Pena, presidente do Conselho Federal de Sacerdotes Afro-Brasileiros, não foi chamado. “Não entendi”, disse ele, ficando mais um pouco no plenário e depois se retirando da atividade. A explicação me foi dada por Darlene Ribeiro, vice-presidente do Primado de Umbanda: “a organização do fórum não o reconhece como representante do candomblé”, afirmou.
Esse “incidente” levanta uma questão não apenas sobre a representatividade de religiões afro-descendentes nesses fóruns e encontros, mas em todo complexo organizativo do Ensino Religioso no Estado. A respeito do próximo concurso para a disciplina, por exemplo. No Edital de 2010 (ainda não divulgado e sendo discutido) para preenchimento de 300 novas vagas de ER , a letra d, do artigo 13.3, diz que para ser credenciado pela Autoridade Religiosa competente o candidato deverá apresentar comprovante de formação religiosa obtida em instituição mantida pela entidade ou por ela reconhecida. A letra d.1 reconhece à Autoridade Religiosa o direito de cancelar, a qualquer tempo, o credenciamento concedido, por motivo amplamente comprovado de incompatibilidade com a função. Os motivos são explicitados na letra d.2 – no caso do professor perder a fé, tornar-se agnóstico ou ateu .
Adailton Moreira, Babá Egbé (pai da comunidade) do terreiro de candomblé Ile Omiojuaro, em Miguel Couto, na Baixada Fluminense, participou de algumas atividades promovidas pela Secretaria sobre o ER, mas se afastou e não participa mais. “Essa exigência da Secretaria de Educação é no mínimo restritiva, pois coloca as religiões de matriz africana em situação de desigualdade, já que seu corpo sacerdotal hierárquico não é generalizante e não responde por todos, não incorpora e nem reúne todos os integrantes. Essa exigência cria diferenças e disputas e nos coloca em situação de conflitos internos. Ela prejudica mais do que ajuda, pois quer que tenhamos a mesma forma de organização e de representação das outras religiões ocidentais e não nos organizamos assim. Vários grupos no Rio agregam várias tradições de matriz africana. Quem é mais legítimo? Quem representa? No nosso ponto de vista todos representam. Porque temos de eleger um? Porque a Secretaria quer?” questiona.
A discriminação do candomblé pelos fóruns não pode ser vista como um fato isolado. Já na coleção de livros didáticos católicos lançada pela Cúria Diocesana, em 2007, na página 56, do volume “A Igreja de Cristo”, destinado ao 5º ano do ensino fundamental, há uma afronta declarada aos praticantes do candomblé. Diz o texto: “A umbanda não faz uso de sacrifícios de animais em seus rituais, porque respeita a vida e a natureza”. A afirmação, além de equivocada, discrimina. É equivocada porque em muitos terreiros de umbanda os rituais de oferenda de animais são comuns. Não realizar não é unanimidade. E discrimina porque menciona, mesmo sem dizer o nome, o candomblé, no qual o ritual das oferendas de animais é eixo fundamental. Ou seja, o que está escrito é que o candomblé não respeita a vida e a natureza.
Vejamos: a coleção é coordenada por Dom Filippo Santoro, Bispo da Educação e do Ensino, que não esteve no VII Fórum, mas enviou representante que participou da mesa de abertura do evento. Nessa articulação da Cúria Diocesana com a Secretaria de Educação haveria mesmo espaço para o candomblé na organização e representação no evento? Acredito que não. Mas a SEEDUC não poderia realizar um fórum que se diz ecumênico sem a participação de religiões afro-descendentes. No meu modo de ver, apenas por isso, a Umbanda é integrada. Durante todo o Fórum muitas orações são realizadas e músicas cantadas. Todas católicas. Da pastinha, já mencionada e entregue aos participantes também consta a “Oração Ambientalista”, reproduzida abaixo.
Além do fórum, inúmeras outras programações estão organizadas entre elas, várias reuniões com articuladores e o GT/ER, diversas reuniões de formação continuada por coordenadoria e dois períodos em outubro para seminários regionais com a previsão de 300 participantes. A pergunta que já podemos fazer é: porque essa preocupação e investimento tamanhos apenas com a disciplina de Ensino Religioso? De acordo com Suzana Gutierrez, diretora do Sindicato dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro (SEPE-RJ), nenhuma outra área de ensino é chamada para encontros de avaliação ou seminários de formação pela Secretaria de Estado. “Não há formação continuada para História, Matemática, Geografia, Educação Física, ou qualquer outra disciplina, só no Ensino Religioso”, afirma a diretora.
Portanto, a intenção desse projeto de pesquisa é continuar observando a Preparação de professores, que considero missionários para rede pública no Estado do Rio de Janeiro.

    

TÍTULO DA PESQUISA

Educação de crianças em terreiros de candomblé e a relação da escola com esses conhecimentos

PERÍODO:

2009 - 2011

LINHA DE PESQUISA

Cotidianos, Redes Educativas e Processos Culturais

GRUPO(S) DE PESQUISA

Educação Classe e Cultura: questões de racismo, religiosidade e imagens

FINANCIAMENTO(S)

Dando continuidade ao trabalho de pesquisa que desenvolvo na UERJ desde setembro de 2006, este projeto continua investigando as práticas culturais de crianças em terreiros de candomblé, tema que abordei em minha tese de doutoramento e durante o período de bolsista PRODOC-CAPES na UERJ (set 2006/abril de 2009). Com o encerramento da pesquisa em abril de 2011, seus resultados estarão no livro "Educação em terreiros - e a relação da escola com crianças de candomblé" - aprovado pelo apoio APQ3 da FAPERJ em dezembro de 2010.

Objetivos do projeto apresentado e os resultados esperados

1) Compreender os modos de apropriação das práticas de cultura popular afro-brasileiras;
2) Conhecer os significados atribuídos pelos sujeitos adultos à infância nestes contextos, em especial nos terreiros;
3) Conhecer o diálogo estabelecido entre estas práticas culturais e outras práticas/instituições sociais (a escola, as religiões, o universo da produção artística, a mídia);
4) Compreender como nesses diálogos estão presentes concepções de educação e de transmissão de valores, tanto por parte dos adultos quanto das crianças
5) Dar continuidade a construção do banco de imagens sobre práticas de cultura popular afro-brasileiras e sua transmissão/apropriação/usos que registrem o movimento constante de entrelaçamento entre as diferentes práticas, para subsidiar os educadores e pesquisadores interessados em refletir sobre a questão intercultural, em especial nos terreiros.
6) Promover uma discussão, no campo da educação, sobre as maneiras pelas quais crianças afro-descendentes se apropriam e constroem conhecimentos, interpretando a sua vida social através das lentes de sua cultura.
7) Discutir o Ensino Religioso na perspectiva de que esta disciplina não inventou o preconceito religiosa/racial na escola, mas, certamente, sua existência aprofunda a discriminação.